A Saudade, minha eterna companheira...

A saudade me acompanha a vida inteira.

Saudade da infância e dos sonhos que eu não tenho mais.

Saudade dos meus desejos de criança.

Saudade da boneca que hoje é poeira cósmica e já foi minha confidente de segredos tão bobos, mas tão importantes quando os contei àquilo que quando grande sabia ser um pedaço de plástico, mas naquele tempo era uma amiga inseparável.

Saudade do mundo tão diferente e imenso que hoje é tão pequeno e estranhamente perigoso.

Saudade da ignorância feliz, das palavras ditas a esmo e tão sabiamente imaturas.

De ter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo o tempo todo.

Saudade dos amigos que não posso mais encontrar por não querer ou não poder mais.

Saudade da imortalidade que só a adolescência dá.

Saudade da música que tocava ao coração e que invadia a alma.

Saudade de ter no futuro profissional algo iluminado, grandioso e tão maravilhosamente desafiador.

Saudade da professora de português, das aulas boas e até das ruins.

Tudo tão interessante, tão cheio de perspectivas que somem amargamente no primeiro assalto à mão armada.

Passeios sem lugar determinado para terminar, sem ônibus certo a tomar e sem hora para chegar.

Dos pés-de-moleque, do doce-de-leite, da cocada feita em casa.

Da existência sempre tão insignificante, mas ao mesmo tempo tão importante.

Do boi-da-cara preta, que era politicamente incorreto mesmo e servia só para pegar o menino que tinha medo de careta. Nada de estudos "à luz da psicologia", e que se danassem os psicólogos!

De sentar até tarde da noite em frente de casa sem discutir nada muito importante.

De saber que a água duraria para sempre.

De não saber que havia um monte de gente pensando diferente, morrendo e matando por isso.

A saudade do medo tão ridículo de tirar  nota baixa na escola e ter que dar explicações tão esfarrapadas que só mesmo os pais faziam de conta que acreditavam só para rir muito depois.

Saudade de saber que as desculpas não seriam engolidas e o que rolaria mesmo era um castigo básico. Sem televisão, por exemplo.

Saudade de não sentir falta da televisão e saber que o castigo era totalmente bobo. Mas chorar assim mesmo...

Saudade de vestir roupas que hoje são ridículas, mas que na adolescência eram tão lindas e tão essenciais. Combinações absurdas que hoje são vistas em fotos e encaradas com um "não acredito que eu usava isso".

Enfim...

Saudade de mim.

Sem medos, sem decepções com o mundo, sem razões para ter tanta raiva.

Será que eu sumi?



Postado por: berinjelavoadora às 02h14
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